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A História do Lidador contada aos mais pequenos


No âmbito das actividades da 2ª Feira do Livro organizada pela Biblioteca Municipal Doutor José Vieira de Carvalho, iniciativa integrada nas festas do Concelho 2007, decorreu, na passada segunda-feira dia 9, o lançamento do livro «Gonçalo Mendes da Maia, o Lidador – Destemido Cavaleiro de D. Afonso Henriques» de Maria José Meireles.

O acto contou com a presença do Presidente da Câmara Municipal da Maia, Engº Bragança Fernandes, e do Vereador do Pelouro da Cultura, Dr. Mário Neves.

A autora é Licenciada em História, foi professora em Guimarães, tendo publicado vários trabalhos de investigação histórica. Nos últimos anos, tem-se dedicado à escrita para o público infantil e juvenil, sendo que vários dos seus livros fazem parte do «Plano Nacional de Leitura».

O livro possui belíssimas ilustrações de Elsa Navarro, nome mais do que firmado no mundo da ilustração editorial portuguesa.

Até há bem pouco tempo quase não havia bibliografia específica sobre Gonçalo Mendes da Maia. Para além da clássica «Morte do Lidador», incluída nas Lendas e Narrativas de Herculano, só a referência na «História de Portugal» dirigida pelo Prof. José Mattoso.

Em 2002 o Doutor José Vieira de Carvalho publica «Da Maia para Portugal», onde inclui um estudo sobre a «Família da Maia».

E em 2005, Fernando Campos dá à estampa «O Cavaleiro da Águia», magnífico romance histórico, de quem Francisco José Viegas disse: Fernando Campos escreve o mais fascinante de todos os seus livros, O Cavaleiro da Águia: poucas vezes um romance histórico português usa uma linguagem tão comovente, se perde e se deixa seduzir pela poesia.

Surge agora este livro de Maria José Meireles, peça muito importante deste puzzle, já que conta a História do Lidador a um público normalmente pouco habituado a estas coisas. Ainda bem que o faz, como aliás já havia feito em obras editadas nesta mesma colecção.autografar

Gonçalo Mendes da Maia é uma figura rodeada de uma aura de mistério.

Pouco se sabe ao certo sobre ele. Quase tudo nos aparece sob um denso manto de nevoeiro, mais digno de D. Sebastião. Sabe-se que foi o braço-direito militar de D. Afonso Henriques, quer como Infante quer como Rei, tal como o irmão Paio foi o grande estratega político. Acredita-se que viveu até aos 90 e tal anos sem nunca ter perdido uma batalha.

A falta de dados concretos e completos sobre Gonçalo, e portanto a questão levantada a quem quer escrever sobre ele, é reconhecida por Fernando Campos numa carta que me dirigiu a propósito do evoluir do seu livro: «E o resto é lenda. E o resto, sendo lenda, deixa-me o campo aberto à ficção e a alargar a saga de Gonçalo Mendes a mais vastos horizontes…». Foi aliás o que fez.

Só que Maria José Meireles deparou-se com um outro problema - ela queria contar a história do homem e da sua época de modo pedagógico e didáctico.

Utilizou então o engenho e a arte que lhe são reconhecidos, misturados com o seu largo saber histórico. E «colocou» Gonçalo Mendes no centro do tempo e do espaço. E «fê-lo» interveniente e protagonista no que de mais importante se passou. E, como Fernando Campos, utilizou uma «estratégia» que só é permitida a quem domina tanto a Escrita como a História. Cerziu factos com pessoas, o que lhe permitiu efectivamente contar uma História. História com H maiúsculo.

E por isso aqui está «tudo». A infância de Gonçalo (inclusivamente a história do rei Ramiro); o mosteiro de Leça do Balio onde o jovem cavaleiro recebe o elmo das mãos de D. Henrique; a morte deste e o início do governo de D. Teresa; o príncipe Afonso armando-se cavaleiro; S. Mamede e a «primeira tarde portuguesa»; Ourique; o tratado de Zamora; a conquista de Lisboa; o ferimento do nosso primeiro rei; a morte do Lidador…

E também a linguagem lírica ou trágica quanto baste da autora: “Pássaro e cavaleiro eram um só… e tudo se encheu de luz… os mais recônditos lugares da floresta brilharam…” e, mais adiante “Regressam à família, ao brilho dos amores, ao verde das ramagens…” ou ainda, o clímax final “Com a força do movimento, o sangue jorrou em torrente da ferida que recebera das mãos de Almoleimar. Levou as mãos ao peito. Sentiu que tombava…”.

E as ilustrações, magníficas. Que beleza mãe e criança na página 7. Que força a do cavaleiro Gonçalo da página 15…

Parabéns à editora Campo das Letras, por «teimar» em continuar esta colecção «O Sol e a Lua», esta no meio de outras, felizmente. É que a literatura infantil, ainda mais deste cariz, é frequentemente um parente pobre no nosso panorama editorial. Juntar, nesta colecção, entre muitos outros, nomes como Teresa Rita Lopes, Manuel António Pina, Mário Cláudio, José Viale Moutinho, Álvaro Magalhães, António Torrado, José Jorge Letria, José Fanha e, obviamente, Maria José Meireles, acompanhá-los com excelentes trabalhos de ilustração e de edição, é tarefa louvável. É um verdadeiro serviço público.

Se queremos que o livro seja ao mesmo tempo um instrumento de diversão e de aprendizagem, sobretudo nas idades do público-alvo a que este se destina, temos de aliar uma boa história a uma escrita dinâmica, atractiva, rigorosa e informativa e a uma ilustração cuidada, simbólica, expressiva, compreensível.

Não tenho dúvidas de que este «Gonçalo Mendes da Maia» reúne todas estas condições.

Não saiu a tempo de que o pudesse utilizar pedagogicamente com o meu filho. Mas tenho a certeza que ele o utilizará quando tiver descendência.

Creio que não se pode pedir mais para um trabalho deste tipo. Que perdure para além do tempo em que foi concebido, tal como a fama, e neste caso o mistério, que rodeia o próprio protagonista.

Note-se que a Câmara Municipal da Maia apoiou esta edição, indo distribuir exemplares pelas bibliotecas escolares para servirem de recurso educativo de modo a que a História Local e os Homens que construíram a nossa Pátria sejam devidamente conhecidos.