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"AVULSOS POR CONTA"

De 12 de abril (inauguração às 22h00) a 10 de maio o Fórum da Maia recebe a exposição de pintura de José Soares, que pode ser visitada gratuitamente de segunda-feira a sábado, entre as 09h00 e as 23h00.

"Dizia-me há dias o José que “fazer este [trabalho em pintura] em vez de outro é, de facto, um acto avulso que se distingue apenas pela decisão”. Assim é, creio eu, na pintura, na poesia e na vida. Escrever este e não outro texto, se no lugar do meu gato, deitado sobre a secretária, estivesse ainda a camélia de ontem. Trilhar esta e não aquela rua, e no percurso encontrar pedaços de luz a justificar a escolha. É desta forma que José Soares se nos apresenta em «Avulsos por conta»: com estas obras e não outras, porque assim decidiu e os quadros assim ditaram. O artista por inteiro, nesta escolha irrepetível, pleno das suas referências, mergulhado na sua matéria e na grande matéria do mundo, cruzando domínios e linguagens, projectando-se a si e ao outro nesse imenso jogo de espelhos a que só a Arte convida.

José Soares oferece-nos cinco grandes conjuntos, atravessados, sem excepção, pela presença do Humano e pela inquietude da sua representação. Uma inquietude que se adivinha em cada centímetro destas pinturas. A multiplicidade do ser, na sua insustentável leveza, o indivíduo desdobrado, fragmentado e refundido, afastando-se e aproximando-se de si próprio, na busca de uma realidade possível, construída em camadas ou delas extraída por encadeadas supressões. Como o poeta, rasurando verso sobre verso, na demanda incansável da palavra, do coração que bate dentro do papel. Uma inquietude que é, ao mesmo tempo, angústia e revelação, luz e sombra, existência e representação. Nudez, rostos, silhuetas: tudo está ao serviço do pintor, como ao serviço do poeta, para contar uma indizível verdade, aquela que vive no avesso das coisas. E, nessa intertextualidade da composição, nesse inebriamento da viagem, somos assaltados por Mário de Sá Carneiro: «Eu não sou eu nem sou o outro / Sou qualquer coisa de intermédio». Porque é precisamente nessa zona que se situa o trabalho do José – no que de intermédio o caminho nos reserva."