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Entre o religioso e o civil, há uma raíz que permanece...

A História é uma Ciência que se tem vindo a aperfeiçoar e que nos dois últimos séculos conheceu uma evolução qualitativa de grande significado. Actualmente, a Historiografia recorre a instrumentos e processos cada vez mais sofisticados, que permitem refinar o apuramento da verdade histórica, obtendo um grau de fiabilidade e certeza, nunca antes experimentado. Processos como o teste do carbono 14, o raio X e a ecografia, entre outros, são práticas correntes na investigação historiográfica.

Na nossa História Local, há felizmente alguns exemplos de investigação séria e credível, fundada numa análise objectiva e esclarecida dos velhos documentos, de modo a que a sua interpretação não fique à mercê da imaginação criativa de quem acede a essa informação.

Contributos de significativa qualidade e importância para a nossa História local, foram legados por homens que de uma forma generosa doaram centenas ou mesmo milhares de horas das suas vidas à investigação e produção documental sobre  o nosso passado comum. Lembro por exemplo, os Padres Vieira Neves da Cruz, Joaquim Antunes de Azevedo e Agostinho de Azevedo e mais recentemente, Carlos Alberto Ferreira de Almeida, Álvaro do Céu Oliveira, José Vieira de Carvalho, António Cruz, Sérgio Sá, Manuel Casal dos Santos Leite, Rui Maia e José Maia Marques, entre outros.

Com base no legado desses maiatos que fizeram e continuam a desenvolver um trabalho consistente e criterioso, julgo ser possível concluir que, a Maia de hoje, nomeadamente o núcleo central do Concelho, se ergueu justamente, a partir da identidade construída ao longo dos três últimos séculos e que tem fundas bases, na devoção do povo desta terra, a Nossa Senhora do Bom Despacho.

A enorme notoriedade popular da Paróquia e Freguesia de S. Miguel de Barreiros, advém inquestionavelmente, dessa devoção das gentes locais e de toda uma região que se estende pela orla marítima e entra pelas terras minhotas e do litoral duriense, até ao sopé do Marão, de onde provinham os milhares de ex-votos e de onde continuam a afluir os actuais romeiros e visitantes.

É óbvio que os contornos da conformação civil do nosso território actual, se foi desenhando nos últimos 150 anos, por força de variadíssimas intervenções de natureza política e social. No entanto, esse desenho territorial, teve sobretudo reflexos ao nível da administração pública local, com particular efeito, na forma e no modo de governação política, com diferenças estruturais, em face dos vários regimes que atravessou, desde a Monarquia, depois à República, passando pelo Estado Novo e finalmente a Democracia.

É meu propósito, assim que a vida permita, provar a tese de que os valores identitários gerados pela devoção a Nossa Senhora do Bom Despacho, fortemente reforçados e renovados anualmente, na secular Romaria em Honra da Virgem, foram e são determinantes, enquanto génese deste sentimento colectivo de pertença a uma comunidade irmanada pela Fé e pela mesma devoção.

Por fim, resta-me deixar aos cépticos que, provavelmente, vão passar a pente fino este meu texto, se me podem apresentar outro argumento, com igual sustentação e evidência histórica, que tenha tanta importância como os que invoquei, como valores incontestáveis de relevante produção simbólica, ao nível da nossa Cultura, ou seja, desse sistema de valores, crenças, tradições, usos, costumes, formas de ver, ser e estar no Mundo.

Nossa Senhora do Bom Despacho é a imagem que nos identifica, congrega e confere consistência e coesão comunitária.

 

 

Nota: A pintura é da autoria de Nicolau Nazzoni e é a ilustração que se encontra no frontespício do Livro da Confraria de Nossa Senhora do Bom Despacho, da Paróquia de S. Miguel de Barreiros da Maia.