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II. Vamos arrumar o passado: a Idade do Ferro e a época romana

Temos vindo a debruçar-nos, de um modo bastante sucinto, sobre as periodizações em Arqueologia, permitindo, ao leitor, orientar-se por entre os infindáveis vestígios da presença humana no território. Igualmente, verificamos que quanto mais antigos são os vestígios dessa presença humana menos informação dispomos e consequentemente maior variabilidade dos intervalos cronológicos. Terminados na Idade do Bronze, chegamos agora à Idade do Ferro, a partir da qual, as fontes arqueológicas são enriquecidas pelas fontes literárias e epigráficas.

A Idade do Ferro do Noroeste atribui-se ao período compreendido entre o séc. VIII-VI a.C. e o séc. I a.C. É durante a Idade do Ferro que se verifica a utilização preferencial da pedra na construção das habitações e nas diversas estruturas que compõem o espaço habitacional, nomeadamente através da construção de muralhas exteriores que, para além da proteção, irá monumentalizar muitos destes povoados, num contexto crescente de disputa pelas melhores áreas de cultivo e disponibilidade de recursos naturais. Verifica-se uma exploração intensiva dos recursos minerais, surgem os primeiros utensílios em ferro, consolida-se uma economia agro-silvo-pastoril, introduzem-se novas espécies vegetais e assiste-se a uma diversificação dos animais domésticos, acompanhando uma sedentarização efetiva das populações. Os dados ambientais revelados pelo estudo das sementes e dos carvões, recolhidos durante as escavações arqueológicas, demonstram comunidades que exploravam grande diversidade de ambientes, desde as áreas junto aos habitats, zonas ribeirinhas e de vale, até aos recursos da montanha e da costa. Por outro lado, existe uma hierarquização do povoamento e uma crescente relação comercial com o mediterrâneo, nomeadamente ao nível do comércio púnico primeiro e posteriormente através de importações itálicas.   Partindo da implantação topográfica dos povoados da Idade do Ferro, normalmente designados por Castros, os investigadores, deste período, agrupam-nos em 3 grandes categorias. A primeira categoria agrupa os povoados localizados em esporões ou remates de esporão que possuem, por isso, uma posição de domínio na paisagem e apresentam o aparato defensivo mais complexo e monumental. Uma segunda enquadra os que se localizam em outeiros de altitude média, destacados na paisagem envolvente, mas sem a visibilidade dos primeiros. A terceira categoria compreende os povoados localizados em pequenos outeiros de baixa altitude, situados em zonas de vale, normalmente designados por castros de baixa altitude ou castros agrícolas. É a partir dos finais do século II a.C. que surgem os grandes oppida, com sistemas defensivos monumentais, grande concentração de população, elevada organização interna dos povoados, diversificação económica e o controle de amplos territórios de exploração nos quais se inscrevem outros povoados dependentes.

 

 

O desembarque romano em Emporion (Girona, Espanha), em 218 a. C. marca o início do interesse de Roma na Hispânia e que termina com a queda do império romano do ocidente, durante o séc. V d.C. O período de pacificação, no que diz respeito à nossa região, no contexto do Noroeste Peninsular, pode ser enquadrado entre duas principais balizas cronológicas. O período entre a expedição do governador da Hispânia Ulterior D. Júnio Bruto em 138/136 a.C. (a primeira de 4 expedições ao Norte do Rio Douro) e a fundação, por Augusto, das três cidades romanas do Noroeste: Bracara Augusta (Braga); Lucus Augusti (Lugo) e Asturica Augusta (Astorga). Em 197 a.C. a Península é dividida em duas grandes províncias, a Hispânia Citerior ou Terraconense e Hispânia Ulterior e durante dois séculos, a fronteira foi avançando de Oriente para Ocidente, dependente das guerras e do quadro político interno. Posteriormente, o contacto com o poder romano atinge este território em cronologias diferentes e de formas igualmente diferentes, incluídos no longo processo de pacificação da Hispânia terminado durante o séc. I a.C. o qual não implicou um abandono massivo de todos povoados fortificados, mas sim uma interação com novas formas de povoamento ligados à conquista e integração deste território no império romano. O modelo romano de organização administrativa do território é estabelecido de uma forma hierárquica, ou seja, o Império é dividido em Províncias, abaixo destas estão os Conventus Jurídicos, e em posição inferior os Populi e as Civitates. A diferença entre Civitates e Populi poderá estar em que os primeiros coincidem com as estruturas territoriais pré-romanas. Entre os muitos testemunhos da influência romana na região a cidade de Braga, antiga Bracara Augusta, é de todos os exemplos o mais paradigmático e importante para o conhecimento da importância da ocupação romana da região. Bracara Augusta, fundada por Augusto, localiza-se numa posição central relativamente ao povoamento indígena e na zona de confluência de vários eixos de comunicação pré-existentes. A cidade apresenta uma malha ortogonal, partindo de dois eixos principais, é orientada segundo eixos de orientação NNO/SSE e SOO/NEE que definiam os quarteirões, os quais possuíam uma área de construção. A cidade, além da sua planta ortogonal delimitada durante o séc. III-IV por uma linha de muralha, possuía sistemas de saneamento e de transporte de água, edifícios públicos como o teatro e as termas, grandes construções privadas como as domus, etc. Igualmente, identificam-se várias oficinas incluindo oficinas de vidro e cerâmica, várias necrópoles e um vasto conjunto de equipamentos que conduzem e refletem, no séc. III, a elevação a capital da Galécia, na sequência das reformas de Diocleciano.

Desenhada a estrutura administrativa, impunha-se implantar centros de poder ligados por uma rede de estradas, de modo a ter um controle efetivo do território conquistado e a delinear a sua eficaz exploração económica. No Noroeste, e partindo do centro administrativo constituído por Bracara Augusta, os itinerários principais estão representados pelas vias XVI (Bracara-Olisipo); XVII (Bracara-Aquae Flaviae-Asturica Augusta); XVIII construída com

 

objetivos mineiros (Bracara-Asturica Augusta) e XIX (Bracara-Lucus-Asturica Augusta), todas mencionadas no Itinerário de Antonino. Em particular, a via XVI que ao permitir a ligação entre as atuais cidades de Braga e Lisboa passava no atual concelho da Maia, e está diretamente relacionada com o vicus de Alvarelhos (Santo Tirso). Para além das vias principais, sinalizadas com marcos miliários, existem as vias secundárias, igualmente importantes na estruturação do povoamento, embora mais difíceis de assinalar uma vez que não estavam incluídas no cursos publicus. As principais fontes para o estudo das populações que habitavam o Noroeste peninsular são as obras, de Estrabão, Ptolomeu, Plínio, Pompónio Mela, Floro, Dion Cassio e Orósio (cf. Fontes Hispaniae Antiquae). As fontes escritas permitem um conhecimento relativo da realidade indígena com que os romanos contactaram e referem-se aos populi (e Civitates) que habitavam o Noroeste.

 

Gabinete de Arqueologia 

 

Para mais conhecimentos consultar:  

 

Carvalho, H. P. A. de Carvalho (2008) O povoamento romano na fachada ocidental do Conventus Bracarensis, Tese de Doutoramento em Arqueologia Área de Conhecimento de Arqueologia da Paisagem e do Povoamento, Universidade do Minho, Braga, 2 vols.

 

Martins, M. (1990) O povoamento proto-histórico e a romanização da bacia do curso médio do Cávado, Cadernos de Arqueologia, Monografias 5, Braga.

 

Morais, R. M. L. (2005) Autarcia e comércio em Bracara Augusta no período AltoImperial: contribuição para o estudo económico da cidade, Bracara Augusta, Escavações Arqueológicas 2, UAUM/NARQ, Braga, 2 vols.

 

 

Imagem: Rede simplificada das vias romanas na Hispânia, com particular atenção às ligações a Bracara Augusta (Rui Morais 2005: 66).