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III. Vamos arrumar o passado: a Alta Idade Média

Sugerimos uma visita à Igreja de Nossa Senhora do Ó, na freguesia de Águas Santas, local onde ainda se podem observar algumas das características do primitivo templo românico!

III. Vamos arrumar o passado: a Alta Idade Média

  A Alta Idade Média em Portugal situa-se entre o séc. V e o séc. XII, ou seja, entre o fim do império romano do ocidente e o início da monarquia portuguesa. Entre o séc. V e o séc. VIII, podem ser enumeradas algumas tendências gerais que nos permitem entender as grandes modificações ocorridas entre a época romana e o início da Idade Média. Por um lado, referimo-nos à crescente perda de dinamismo das cidades com o desaparecimento dos grupos socioprofissionais mais relevantes; debilidade e transformação do poder político; aparecimento de grupos familiares e de proteção clientelística; revalorização do campo como cenário de vida; riqueza rústica como critério de poder e fortuna e ampliação de vínculos privados num contexto social repartido entre os potentiones (senhores e camponeses livres) e os humiliores (escravos). Por outro lado, a passagem e a instalação de povos nómadas , entre o séc. V ao séc. VIII e a ocupação Muçulmana da Península Ibérica irão exercer uma influência política, administrativa e cultural igualmente importante ao longo deste período.

O povoamento encontra-se organizado em villa e em comunidades de aldeia. A villa medieval oferecia um aspeto de exploração rural, com dimensões variáveis, normalmente amplas, com diferentes atividades nos espaços envolventes aos edifícios destinados à moradia e armazenamento de bens. A exploração da terra (cereal, vinho, olival e bosque), sob as ordens do dominus é feita pelos escravos alojados nas dependências do edificado. Teria uma área reservada, com casa e terrenos, e a outra parte seria entregue para exploração, tanto a antigos escravos rurais, agora servos rurais, como a pessoas de condição jurídica livre, embora sob a dependência de um patricinium. Neste quadro, a grande villa, irá transformar-se numa extensa propriedade dispersa ao longo de um vasto território, de um único dono, favorecendo o desenvolvimento de um conjunto variado de pequenas unidades autónomas. A organização em comunidade de aldeia irá implicar um grupo humano com um assentamento de carater estável num dado território, explorado através do aproveitamento individualizado (famílias nucleares) dos espaços agrícolas, da utilização coletiva do monte, do bosque e da água. Os grupos instalados no mesmo lugar convertem-se em vicini, veiculados por relações de interesse mútuo, nomeadamente para construção de igrejas e eleição do seu presbítero. As paróquias, independentemente da sua origem e das suas diferentes realidades ao longo do território, apresentam maior desenvolvimento a partir dos inícios do séc. XI, reforçando a coesão e a sociabilidade aldeã, num enquadramento socio-espacial e espiritual através do lugar de culto frequentado pela comunidade de fregueses. Cabendo ao senhor das terras, ou à iniciativa e vontade dos camponeses, o ordenamento, controlo e proteção das pessoas e dos bens através da construção de pequenas estruturas defensivas, sobretudo entre o séc. IX-XI. Durante este período, no Norte de Portugal, as áreas urbanas ganham novo protagonismo e a rede viária diversifica-se, sobretudo ao nível regional, com melhores condições para a utilização do transporte carrário, acompanhando a dinâmica das populações e o desenvolvimento de mercados e de feiras. Numa altura em que a peregrinação era tida como uma das mais elevadas formas de religiosidade e devoção.

No início do séc. IV, o Imperador romano Constantino (312-337) consagra a liberdade de culto dos cristãos possibilitando o desenvolvimento da Igreja, enquanto instituição religiosa sob a ordem de bispos, que será acompanhada pelos diferentes movimentos artísticos diretamente relacionados com a sua progressiva expansão no território. No Noroeste, estes movimentos artísticos, surgem durante o séc. VI com os primeiros templos Paleocristãos e o desenvolvimento de um conjunto de paróquias no Entre-Douro-e-Minho. Entre o séc. IX-X, no movimento de reconquista, com Afonso III (866-910) chega ao vale do Douro (presúria de Portucale em 868) despoletando uma renovação artística que resultará de um conjunto de diversas soluções e influências arquitetónicas em prol do edificado religioso. Contudo, será o movimento artístico do Românico que irá marcar a paisagem rural dos séculos seguintes.

Entre o séc. XII e o séc. XIII, surge o Românico em Portugal. A arquitetura deste período irá assumir diferentes vocabulários ao nível regional devido ao processo de reconquista; às influências locais; à política eclesiástica, ou seja, às novas obrigações litúrgicas que especifica a organização do espaço (Reforma Gregoriana); às comunidades monacais e o emergir da identidade do Reino de Portugal com fortes ligações Além-Pirenéus. Na paisagem românica, a arquitetura apresenta-se, normalmente, sob a forma de pequenas igrejas com uma só nave com cabeceiras retas ou semicirculares e absides de proporções modestas. A construção da igreja seria iniciada pela cabeceira, seguido dos alicerces dos muros exteriores, nave e porta ocidental. A porta ocidental tem um significado particular, é vista como a porta do Céu, pórtico da glória e paraíso e preside ao espaço fronteiro cemiterial mais importante. As portas contêm tímpanos com temas de tendência apotropaicos como cruzes, animais terríficos com valores polissémicos como a harpia, leão, grifo, basilisco, nós de Salomão, suásticas e rosetas. A decoração dos portais estende-se não só ao tímpano como às colunas e arquivoltas.  

A seleção do local para a construção do edificado religioso acompanha o habitat das populações. Em alguns casos, associam-se a espaços ocupados por templos anteriores, próximos das principais vias ou com forte tradição local. Os materiais que compõem estes edifícios variam conforme a sua disponibilidade regional, no Noroeste o granito é o material de construção mais utilizado, cuja exploração, à época, remete-nos para uma cadeia operatória desenvolvida sob um plano no qual se destaca a organização de trabalho de alguns artesãos. Nas pedreiras mais próximas e com melhor qualidade, a extração dos blocos obedecia a regras de corte e dimensões, sob a responsabilidade do Pedreiro-Montante. Na chega à oficina, normalmente de pequenas dimensões e situada junto ao edifício a construir, o Pedreiro-Canteiro encarregava-se da esquadria e acabamento. O Canteiro (ou Mestre de Obra) mais experiente, estava encarregue dos elementos mais complexos como as aberturas, molduras e frisos. Finalmente, o Canteiro-Escultor seria o grande responsável pelos temas decorativos e pelas imagens da arte românica. No caso dos edifícios monacais cistercienses o dirigente da obra, considerado o autor do risco, seria um monge. Um elemento caracterizador e que reflete o prestígio da arte do canteiro são as siglas que muitas pedras ostentam e que ainda se podem observar em muitos destes edifícios e serviam para se atribuir a responsabilidade do trabalho e, eventualmente, para contabilizar o seu pagamento. Normalmente, representam formas alfabéticas mais ou menos floridas e abreviaturas, com o tempo, muitas destas irão tornar-se ideográficas.

Sugerimos uma visita à Igreja de Nossa Senhora do Ó, na freguesia de Águas Santas, local onde ainda se podem observar algumas das características do primitivo templo românico!

 

Gabinete de Arqueologia

 

 

Para mais conhecimentos consultar:

ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de (1978) Castelologia Medieval de Entre Douro e Minho, Prova Complementar da Tese de Doutoramento (policopiada), Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Porto.

ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de (1978) Arquitectura Românica de Entre Douro e Minho, Tese de Doutoramento (policopiada), Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Porto.

BARROCA, Mário Jorge (1987) Necrópoles e Sepulturas Medievais de Entre-Douro-e-Minho (séculos V a XV), Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Porto (policopiada).

GARCIA DE CORTAZAR, José Angel (1983) La sociedade rural en la Espanã medieval, 1ª. Edição, Madrid.

MATTOSO, José (dir.) (1992): História de Portugal, 8 vols., Círculo de Leitores, Lisboa.

http://www.rotadoromanico.com/VPT/CENTRODEESTUDOS/PUBLICACOES/Paginas/Publicacoes.aspx