Ferramentas Pessoais

Ir para o conteúdo. | Ir para a navegação

Você está aqui: Entrada / Notícias e Eventos / IV. Vamos arrumar o passado: sarcófagos medievais no concelho da Maia

IV. Vamos arrumar o passado: sarcófagos medievais no concelho da Maia

Os sarcófagos monolíticos não são a única forma de sepultar na Idade Média, nem tão pouco seria a prática de sepultar mais acessível é, no entanto, aquela com mais exemplares preservados e conhecidos no concelho da Maia.

Na notícia anterior referimo-nos à Alta Idade Média (séc. V ao XII) enquanto período

surpreendentemente dinâmico e ainda muito desconhecido, que termina com a formação do

reino de Portugal. Acontecimento esse que irá marcar o início da Baixa Idade Média até ao séc.

XV. Como testemunho material complementar para o estudo deste período da História, nas

frases seguintes, referimo-nos aos sarcófagos medievais existentes no concelho da Maia.

Na época Paleocristã, já eram utilizados sarcófagos monolíticos (em granito, no Norte de

Portugal), talhados num só bloco de pedra e colocados, preferencialmente, no interior ou no

espaço exterior junto aos edifícios religiosos. A sua ocorrência, na maioria dos casos, deve-
se às várias remodelações que estes edifícios tiveram ao longo do tempo. Pese embora,

não exista um contexto estratigráfico de proveniência precisa destes achados, o seu estudo

constitui, muitas vezes, o único testemunho de uma ocupação antiga.

Entre o séc. VIII-IX e o séc. XIV, verificam-se diferenças morfológicas e estilísticas nos

sarcófagos monolíticos. Entre o séc. VIII e o séc. IX os sarcófagos são de configuração ovoide,

com ou sem cantos arredondados, de fundo plano. Entre o séc. IX e o séc. XI, predominam

os sarcófagos com os contornos de tendência retangular e sarcófagos com contornos

trapezoidais. Entre o séc. XI e o séc. XII, surgem os sarcófagos antropomórficos, ou seja, o

limite interno da cavidade de inumação prefigura a forma do corpo e a forma da cabeça.

Quando a linha da cabeça é sugestiva ou incompleta, denomina-se de cabeceira de arco

peraltado, quando é redonda denomina-se de cabeceira de arco ultrapassado.

Associados aos sarcófagos podem ser identificadas decorações e tampas. As decorações,

entre outros motivos, podem apresentar a forma de cruz patada em alto-relevo. As tampas

monolíticas dos sarcófagos também evidenciam uma transformação ao longo do tempo.

Inicialmente, pouco cuidadas e de cantos arredondados, mais tarde, já apresentam uma

secção hexagonal com ou sem decoração.

Os sarcófagos monolíticos não são a única forma de sepultar na Idade Média, nem tão

pouco seria a prática de sepultar mais acessível é, no entanto, aquela com mais exemplares

preservados e conhecidos no concelho da Maia.

Muito sucintamente, referimo-nos a alguns dos sarcófagos e das tampas de sepultura

existente no concelho, situadas na sua maioria, junto às igrejas paroquiais, refletindo uma

longa diacronia de ocupação destes espaços ainda hoje centrais na vida da comunidade.

Na freguesia de Águas Santas, entre a igreja e o muro do cemitério atual, podem observar-se

5 sarcófagos e 4 tampas. A cronologia atribuída a este conjunto permite situá-lo entre o séc. X

e XIV. Em Gondim, localizado em propriedade privada, existe um sarcófago ao qual se atribui

uma cronologia entre o séc. X e XI. Da mesma altura é o sarcófago, em mau estado, localizado

na envolvência da igreja paroquial de Silva Escura. Ao sarcófago de S. Pedro de Avioso,

localizado junto à igreja paroquial, é atribuída uma cronologia entre o séc. IX e XI. Na freguesia

de S. Maria de Avioso, igualmente preservados no adro da igreja paroquial, encontram-se 2

sarcófagos, atribuídos ao séc. X e XI.

Deste conjunto significativo de testemunhos ligados ao culto na Idade Média, destaca-se um

achado recente, localizado junto aos dois sarcófagos referidos anteriormente na freguesia

de S. Maria de Avioso. Trata-se de uma tampa de sepultura com decoração em estola. Este

estilo decorativo, segundo Mário Barroca (1987), remete-nos para o séc. IX ao séc. XI, altura

marcada pelo período da reconquista, em concordância com a cronologia proposta para os 2 sarcófagos. Em conversa com o Padre e Professor Joaquim Santos, a referida tampa

de sepultura foi, durante séculos, utilizada como “pedra de audiência”, ou seja, local onde

se reuniam, em domingos marcados e no fim da missa, as assembleias de freguesia para

discussão dos aspetos religiosos e sociais da comunidade.

Sugerimos uma visita ao adro da igreja paroquial de Águas Santas e de Santa Maria de Avioso.

Como desafio, ao leitor mais atento, propomos que identifique, em uma das tampas de

sepultura de Águas Santas, a gravação de um “tabuleiro de jogo” medieval, e no adro da igreja

de Santa Maria de Avioso, encontre a tampa de sepultura com decoração.

Usufrua de um património de todos para todos!

Gabinete de Arqueologia

Para mais conhecimentos consultar:

BARROCA, Mário Jorge (1987) Necrópoles e Sepulturas Medievais de Entre-Douro-e-Minho

(séculos V a XV), Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Porto (policopiada).

BENCATEL, Diana Ornelas (2009) Sarcófagos e sepulturas medievais (Maia e Matosinhos):

análise tipológica e cronológica in Revista Portuguesa de Arqueologia, volume 12, número 2,

pp. 209 –238.

http://cultura.maiadigital.pt/em-linha-com/arqueologia/periodos-historicos/folder.2006-11-

06.1034352949

Fotografia: conjunto de sarcófagos localizados no adro da igreja paroquial de Águas Santas,

Maia.