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O Confronto entre Música e Sound Art

O estado da Arte dos sons parece encontrar-se actualmente numa verdadeira encruzilhada estética.

Todos nós despertamos um dia para a Música, provavelmente, reagindo de uma forma particular, muito nossa, aos sons que nos provocavam um sentimento de bem-estar e de prazer, ou quiçá, de sinal contrário!?...

Como certamente compreenderam, a pontuação com que terminei o parágrafo anterior, coloca o problema no seu devido lugar, ou seja, não há respostas definitivas para as vivências humanas que fazem a história de vida de cada ser.

As formas de expressão musical, a meu ver, intrínsecas à natureza da pessoa humana, variam consoante o aporte cultural de cada um, da sua maneira muito própria de ser, estar, ver e ouvir o Mundo, para não falarmos da sensibilidade inata, por vezes confundida com talento, o que não é bem a mesma coisa.

É neste meu entendimento da diversidade humana que me parece muito estimulante o debate que está em aberto por esse Mundo fora, quer nos grandes fóruns intelectuais, onde se discutem os caminhos da estética, ou da falta dela, como nos meios artísticos, onde a Arte acontece e por consequência, também junto de um certo segmento de público, especialmente aquele que conforma, de algum modo, a opinião pública, ou seja, a crítica, sempre tão incompreendida, não raras vezes, até odiada.

Embora não se conheça uma definição completa, acabada e absolutamente definitiva que estabeleça com clareza o que é Música, há apenas alguns ensaios, mais ou menos, bem sucedidos que, conseguiram estabelecer um constructo teórico que colha um entendimento mais abrangente. No entanto, a verdade é que se perguntarmos a uma pessoa o que significa Música, ela será capaz de, ainda que de uma forma empírica e por palavras suas, pelo menos, expressar o significado que esse bem representa na sua vida, atribuindo-lhe um certo valor, espaço e função, salvaguardando aspectos mais particulares, como o momento do dia em que ouve Música, o estado de espírito em que a pretende ouvir e que, igualmente, acaba por determinar a sua escolha, modelando o seu gosto, quanto a género ou estilo.

Digamos então que existe um consenso de matriz cultural sobre o que se pode, ou não, designar por Música, independentemente de todas as reflexões teóricas que os filósofos, compositores, músicos intérpretes e musicólogos têm vindo a produzir.

A Sound Art

Neste tempo da “Post-Modernidade”, conceito para mim algo estranho, há uma corrente do pensamento estético que defende a existência de um novo caminho, por onde alguns criadores vão fazendo os seus percursos, a que chamam Sound Art.

A chamada Sound Art utiliza o som como matéria-prima para a construção do seu discurso estético, ou para a sua negação.

Este facto leva-nos a questionar – e a Música, também não utiliza o som como matéria-prima, para construir a sua estética, qualquer que seja?

É pois aqui que nasce o problema. É que a matéria-prima de ambas as artes acaba por ser a mesma, ou seja, o som e, também, a ausência dele – o silêncio.

Há, de todo o modo, uma dificuldade que, a meu ver, se coloca à Sound Art, normalmente associada a outras artes e linguagens, nomeadamente as Artes Plásticas e a Performance, com particular incidência nas instalações que incorporam diferentes formas e linguagens, para construir a totalidade do discurso.

A integração da Música na totalidade de outros discursos estéticos também é verdade, como na Dança, no Teatro, na Ópera, no Cinema, no Vídeo e mesmo na Arte, inclusive nas instalações. Mas, ao contrário daquilo que conhecemos da Sound Art, a Música mesmo retirada do ambiente de integração e da totalidade desses discursos estéticos, consegue respirar autonomamente.

Todos nós temos, por certo, guardadas no nosso imaginário, as músicas dos filmes das nossas vidas, das óperas e dos bailados da nossa preferência, enfim retemos, porventura, com maior facilidade e frescura, os momentos musicais dessas totalidades estéticas.

Não sei e julgo que, dificilmente, alguém será capaz de afirmar sem o risco de cometer um equívoco histórico, que aquilo que distingue Música de Sound Art, tem muito mais a ver com as matrizes e fontes sonoras, do que com o facto de a Música ser composta e feita por músicos.

É verdade que na Música, há também compositores que utilizaram e utilizam fontes sonoras que não fazem parte da paleta tímbrica convencional, como por exemplo, a bigorna do ferreiro (utilizada na Ópera Il Trovador de Verdi), ou as canhoneiras de artilharia pesada (utilizadas na Abertura 1812 de Tchaikovsky), entre muitas obras que poderia aqui citar. Se bem que, nestes casos, essas matérias-primas, foram inseridas num pensamento estético musical e adaptadas a uma escrita caracterizada por uma concepção sonora, em que mesmo os sons produzidos por instrumentos não musicais, passaram a assumir essa dimensão.

A Sound Art também faz a sua recolha de material sonoro e constrói os seus discursos estéticos, utilizando inclusive instrumentos musicais, mas o que acontece, quase invariavelmente, é que uma vez isolado esse meio, retirado à lógica do discurso representado pela totalidade dos multi meios, torna esse material sonoro, difícil de se ouvir, devido a sua perda de sentido, não lhe conferindo qualquer capacidade de respirar autonomamente. Isto não significa, como é óbvio, que haja quem tenha opções de gosto, com cabimento suficiente para ouvir e até cultivar, coleccionando, essa matéria-prima.

Em suma, será a Música contemporânea Sound Art, e esta será Música?...